Quarta Colônia (172)

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Quarta Colônia

  • Data de Publicação: 05 de Fevereiro de 2010



Especial Cidades & Cotidiano

Recuperação de Igreja mobiliza Polêsine

Uma região tão cheia de histórias, vivências e riquezas naturais e como é a Quarta Colônia precisa estar sempre atenta para sua preservação. As histórias, que passam de uma geração para a seguinte, se mantêm na memória como lembranças vivas dos antepassados e de seus costumes. Já o legado deixado através das edificações exige mais que o relembrar de “causos” – em São João do Polêsine, exigiu organização e esforço para mobilizar a comunidade.

A necessidade de reformas na estrutura da Igreja Matriz São João Batista, cuja construção foi iniciada em 1949, mobilizou a constituição da Associação Comunitária de Preservação do Patrimônio Cultural, Artístico e Religioso de São João do Polêsine. Desde maio do ano passado, a entidade busca arrecadar fundos para a restauração da Matriz. Contudo, esse não é o único objetivo. “O objetivo principal da associação, que é composta por cidadãos da comunidade, é resgatar a história dos antepassados, que tanto trabalharam para a construção de tantas obras no município”, destaca Moacyr Domingos Pozzebon, tesoureiro da associação.

São João do Polêsine, como destaca Pozzebon, teve, desde a sua colonização, três Igrejas, três Hospitais e três Cemitérios construídos. A Matriz é a terceira das igrejas construídas, e o desejo de vê-la restaurada motivou a associação a visitar cerca de 450 famílias da comunidade. O objetivo da entidade foi alcançado, e a campanha, até então, é bem-sucedida. Mesmo assim, ela continua. A primeira etapa teve início agora em janeiro, e a expectativa de conclusão é para o mês de julho. Nesse momento, a restauração é na parte externa da Igreja.


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Em 1949 foi iniciada a construção da Igreja Matriz São João Batista, sob a responsabilidade do engenheiro civil Vilson Aita de Santa Maria. A obra foi concluída em 1955, quando ocorreu a 1ª Festa do Arroz.

Créditos: Divulgação


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A Igreja Matriz São João Batista é mais do que um templo religioso, é um patrimônio histórico e cultural.

Créditos: Divulgação


Para saber mais

A Igreja Matriz São João Batista ainda necessita de restaurações na parte interna do prédio, por isso, a campanha não para. Para contatar a Associação Comunitária de Preservação do Patrimônio Cultural, Artístico e Religioso de São João do Polêsine, o telefone é (55) 3269 1253. Mais informações estão disponíveis no site do município, que é www.polesine.com.br.


Pesquisa & Realidade

Cenas do Cotidiano

José Itaqui*

Da raça negra, anda com as calças pela metade da bunda gorda e suja. Seu corpo, como cartão de visita, diz quase tudo do seu estado. Quadro de degradação que leva, aos “sadios” fugirem, até porque o mau cheiro provoca náuseas, impedindo qualquer tipo de proximidade física. A reação comum de qualquer pedestre é prender a respiração e passar o mais longe e rápido possível dele. O mais frequente é atravessar a rua, fugir deste quadro de abandono e de miséria exposta, em movimento, na via pública. Na opinião de muitos cidadãos, fechados em seus interesses, esta presença ofende. Na verdade, mexe com os nossos medos mais profundos. Gostaríamos de vê-los desterrados do convívio público, reclusos o mais longe possível dos nossos olhos.

Os nossos loucos não perderam o direito de ser com os outros e é neste convívio que exercem a sua presença. Como não tomá-los em conta? Estão por aí, perambulam, mas tem seus lugares de referência, de dormir, comer, discursar, fazer seu show, marcar presença crítica ou simplesmente serem. A personagem que descrevo tem características comuns e poderia ser mais uma das tantas que vivem pelas ruas da cidade. O senhor de quem falo é muito mais e para isto é necessário dar-se a liberdade de, ao menos, tê-lo em atenção, reconhecê-lo como pessoa, como um ser humano que tem uma vida e nós, “os sadios”, não temos o direito de complicá-la mais ainda.

Eu o conheço de vista, todavia não tive a oportunidade de conversar com ele, mas as suas histórias vieram a mim e me causam muita ternura, dele e das pessoas que, de uma forma ou de outra, não importa a frequência, vínculos etc., lhe dão um pouco de atenção e carinho. E isto, numa cidade, não é pouco! A primeira referência que tive dele teve como cenário uma casa de chaves da rua Dr. Bozzano. Quem me contou a história estava nesta loja quando ele, a nossa personagem, entrou dirigindo-se, com a sua fala doce e aguda, ao chaveiro, com um relógio de pulso na mão. “Concerta o relógio para mim?” Sem tomá-lo em conta o chaveiro, que não é relojoeiro, diagnostica: Não! Este relógio não tem concerto! Decepcionado, imagino que pela atitude do seu interlocutor, ele se reorganiza; não na atitude corporal, mas no uso da palavra. Assume uma impostação robusta e tranquila, grave e seca, e responde ao chaveiro metido a relojoeiro: “Muito bem. Eu vou ver o que posso fazer. Obrigado!” Sai da loja como o senhor que É.

A segunda referência da mesma personagem, desta vez é do encontro com uma de suas conhecidas que vinha pela Bozzano, em direção ao centro, entre a Visconde de Pelotas e a Barão, ao redor das 20 horas, já noite. Quando ele a vê, lhe diz: “Eu estava pensando em ti e que bom te ver!” A conhecida que já o havia percebido, enquanto caminhava em sua direção, retira do bolso dois reais. Valor de um cachorro quente; sempre e quando ele tenha os cinquenta centavos restantes. Mas tenha ou não tenha ele não pede mais do que recebe, contenta-se com o que lhe é dado. Ela lhe dá o bilhete de dois reais. Ao vê-lo a sua expressão se ilumina e é doce e gentil a resposta como verdadeira foi a saudação. “Eu sabia que eu ia te encontrar! Muito obrigado! Vou comprar um cachorro quente, quentinho, bem quentinho!!” Funde-se na noite.

A terceira referência se dá quando outra conhecida ao chegar a uma padaria onde ele se encontrava na calçada. Ao vê-la diz sem rodeios: “A senhora poderia comprar para mim um sanduíche e uma Fanta?”. Com prazer! Responde à conhecida. Mas, lhe vem uma dívida... Volta-se e lhe pergunta: Fanta de uva ou laranja? “De laranja!”. Responde com os olhos brilhantes. De posse do sanduíche e da Fanta, iluminado, agradece: “Obrigado querida!”

Quem são os que estão por de detrás dessa máscara? Luiggi Pirandello, dramaturgo italiano, dizia que sem as nossas máscaras nos dissolvemos. Este estranho, que vem das falas de pessoas que gosto e admiro, tem estado comigo, remexendo vivências não resolvidas de uma situação que é muito difícil de aceitar. Mais ainda de cuidar dos nossos loucos, em especial quando é um amigo, irmão, companheira, pai ou mãe. Aceitar a loucura do outro parecera ser bem mais complicado que a própria morte. Porque temos tanta resistência de aceitar atitudes tranquilas, comportamentos amáveis e gentis da parte deles? Porque eles nos deixam tão incômodos, impotentes e carregados de culpas? São loucos! Este rótulo por sorte nem sempre a todos paralisa. Muito ao contrário, as cenas que descrevi, com exceção da primeira, a relação é respeitosa e afável. Nestes encontros ocasionais, no pragmatismo do ato de quem dá e de quem recebe, estão marcados pelo reconhecimento do outro expresso afetivamente. Isto, não importa o grau da loucura, é o mínimo que se deve ser para com eles.


Secretario Executivo* condesus@quartacolonia.com.br


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Luiggi Pirandello, dramaturgo italiano, dizia que sem as nossas máscaras nos dissolvemos.

Créditos: Divulgação


Quarta Colônia em Destaque

Para sempre patrimônio

A vocação turística da Quarta Colônia é inegável. Segundo informações de Decio Bevilacqua, professor adjunto da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), existem diversas vocações turísticas na região. Ele conta que a gastronomia e a religião são componentes fortes enquanto atrativos turísticos. E, que, entretanto a exploração e as potencialidades vão muito além delas. Além do Turismo Ecológico e de Meio Ambiente, e do Paleontológico, que promete desencadear um verdadeiro salto para a região, o Cultural é revelador. “Se pretende preservar (tombar), com o uso para a localização de atividades e fins culturais, memória dos colonizadores e todos os aspectos culturais e de vida dos moradores da região”, explica.

A ligação do professor Décio com a Quarta Colônia é bastante forte. “Em outras oportunidades, já trabalhamos em projetos de planejamento urbano na região, tanto com finalidade acadêmica quanto executiva”. Ele fala que esses trabalhos contaram com a participação de uma equipe coordenadora por arquitetos urbanistas, composta por ele, e por duas arquitetas egressas da UFSM, mestres em Planejamento Urbano e Regional pela UFRGS, Izabele Colusso e Geisa Zanini Rorato.


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Para o levantamento foram considerados os aspectos construtivos relacionados com tecnologias, materiais, usos e costumes entre outras dimensões.

Créditos: Andrewes Koltermann


A história marcada nas edificações – Para quem não está a par, o Projeto Ambiental da Quarta Colônia realizou o levantamento de toda a região e catalogou aproximadamente 914 edificações que merecem ser observadas como patrimônio construído. Conforme Bevilacqua, “são edificações que representam vários momentos da história da região em várias dimensões”. Bevilacqua conta que é difícil escolher uma obra interessante apenas. “É um patrimônio fantástico, que agora reconhecido e identificado, deve ser mais bem tratado pelos municípios e recuperado para sempre”. O professor diz que, desde as simples capelas espalhadas pela área rural ou os núcleos urbanos isolados como Vale Vêneto, Caemborá, Santos Anjos ou Novo Treviso, tudo é rico e merece cuidados. Nesta edição, Bevilacqua destaca o sítio fossilífero São Luiz, no município de Faxinal do Soturno, considerado de interesse internacional. “Após o conhecimento e a localização, agora é necessário a demarcação do sítio, e de outros também, e todo processo legal para transformar o local publico e protegido”, informa o professor. Ele aconselha a comunidade: “Todos devem estar presentes e participar mais sobre estes assuntos. Hoje a região conta com o levantamento de seu patrimônio e isto é um passo bastante grande para a sua preservação”.

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O sítio São Luiz é um local especial por ser considerado de interesse internacional.

Créditos: CPRM


Nossa Gente, Nossa Atitude

A batida de Ana Cláudia

Atoque é uma espécie de tambor na cultura africana e também dá nome ao projeto que leva a percussão à região da Quarta Colônia, nas cidades de Vale Vêneto e São João do Polêsine. O grupo foi fundado em 2002, em Santa Maria, pelo professor Márcio “Kbecinha” Tólio. Desde 2005, ano de fundação do grupo Tambores do Vale, em Vale Vêneto, Ana Cláudia Dotto participa das atividades. Mas o contato de Ana Cláudia com a música começou muito antes: “Minha família sempre foi muito ligada à música, eu sempre tive contato. Aos cinco anos eu comecei a fazer aulas de violino, com um grupo aqui de Vale Vêneto, mas o grupo terminou e o pessoal demonstrou interesse pela percussão por causa do Festival de Inverno da UFSM”.

O retorno da mudança do violino para a percussão foi significativo: “Meu primeiro contato com o projeto foi encantador porque a percussão te permite resultado imediato, o que muitas vezes não é possível com outros instrumentos”. O Atoque para Ana Cláudia é mais do que uma forma de aprender música: “O projeto é uma forma de oportunidade, para quem é jovem e mora em Vale Vêneto. O Tambores do Vale é um meio de mostrar para as pessoas o que se faz aqui. Para mim, é um momento de lazer, de encontro com os amigos”.

Com 17 anos, a estudante iniciará o curso de Design de Moda neste ano, mas sem deixar a música de lado: “A música representa disciplina, atenção, cultura, todo mundo deveria ter contato com a música, mesmo não sendo a sua profissão”. No futuro, a jovem quer devolver a Vale Vêneto o que aprendeu aqui: “Pretendo me formar, buscar especialização na minha área e quem sabe depois disso voltar pro Vale”. E o que ela aprendeu? “Aqui no Vale a gente aprende o valor da tranquilidade, bons amigos, tu te sente em casa em qualquer lugar. É bom viver aqui, mas é claro que não se tem a quantia de oportunidades que uma cidade oferece, a gente precisa buscar estudo fora pra depois voltar”.


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Créditos: Arquivo Pessoal


Acontece

Etnoagricultura e economia solidária são os pilares do quilombo

“O arroz quilombola cativou o agricultor!”, afirma Nelson Diehl, um dos coordenadores do Núcleo Ecologia e Agricultura da Guayí, ONG que defende a democracia participativa, a luta feminista, as questões de gênero, a economia popular solidária e as questões ecológicas e das comunidades quilombolas do Estado. Com sedes em Porto Alegre e Duque de Caxias, a Guayí existe desde 2001, mas foi só em 2004, que o Núcleo Ecologia e Agriculturas se voltou para o apoio a etnocultura com base ecológica biomineralizada nas comunidades de Rincão dos Martimianos e São Miguel dos Pretos, em Restinga Seca. O projeto evoluiu e hoje atende mais comunidades e também procura incentivar a economia solidária. O arroz quilombola é a variedade de semente crioula plantada pelos trabalhadores das comunidades negras rurais. As qualidades da semente como rusticidade, imponência, beleza e produtividade cativaram mesmo os agricultores dos quilombos de Restinga Seca e as oficinas de culinária auxiliaram no melhor uso da semente. “O trabalho é todo integrado ao diálogo onde são estabelecidas responsabilidades e metas entre nós da Guayí e as comunidades de Rincão dos Martimianos e São Miguel dos Pretos”, explica Diehl.

Entre alguns dos objetivos do trabalho estão, de acordo com Diehl: Promover a auto-estima e a segurança alimentar; Oportunizar conhecimentos de práticas de tecnologias ecológicas inovadoras; Geração de renda; Intercâmbio cultural e comercial com consumidores urbanos. Além de fonte de renda, o arroz é uma forma de resistência cultural importante, não só para os moradores dos quilombos de Restinga Seca, mas para todos os descendentes dos quilombolas. “O arroz quilombola conta a história do negro e conta também o que lhe foi negado. É um direito saber da sua história. E esta história pode ser contada e recriada diariamente nas refeições em torno da mesa”, finaliza Diehl.


MAIS

O arroz quilombola é comercializado em Porto Alegre, Santa Catarina e no Rio de Janeiro. A Comunidade Quilombola São Miguel dos Negros comercializa seus produtos pela Coopasa – Cooperativa de Produção Alternativa de São Miguel, em diversos pontos de venda em Restinga Seca.


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Lavoura do arroz quilombola em Restinga Seca;

Créditos: Divulgação Guayí


Agenda

Caminhada Noturna

Conhecer pontos turísticos da região da Quarta Colônia já é uma boa pedida, ainda mais quando o passeio é feito sob a luz das estrelas. Essa é a proposta da Caminhada Noite de Luar, que desde 2006 proporciona aos seus participantes uma opção diferente de trilha em Vale Vêneto, distrito de São João do Polêsine. Além de aproveitar as belas paisagens da região da Quarta Colônia, as estrelas e os planetas podem ser vistos do alto da colina, com a ajuda de um telescópio. A iniciativa do projeto surgiu de Tânia Rorato, e sua ideia foi aprimorada através da consultoria do projeto de Desenvolvimento e Qualificação de Turismo, do Sebrae.

Na última semana, foi realizada mais uma edição da caminhada. O itinerário foi diferente dos habituais, iniciando pela Praça da Polenta. O trajeto percorreu a estrada velha e alcançou a residência da família Iop. O passeio, que dura em média cinco horas, já tem datas marcadas para próximas edições. Em fevereiro, as noites dos dias 20 e 27 já estão reservadas para caminhar e olhar as belezas do céu.

Alá-la-ô Amanhã tem pré-carnaval na Sace Vale Vêneto. A animação é da Banda Cenário. Mais informações sobre o Carnaval da Quarta Colônia pelos telefones (55) 3266 1277, (55) 3268 1116 ou pelo e-mail: avajaces@gmail.com .