Quarta Colônia (170)

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Quarta Colônia

  • Data de Publicação: 22 de janeiro de 2010



Especial Cidades & Cotidiano

O lado africano da Quarta Colônia

Em enormes navios negreiros, os escravos cruzavam o oceano em direção a terras desconhecidas. Com medo de não haver comida no novo mundo, as negras escondiam em seus cabelos sementes, trazendo um pouco da África em suas cabeças. Oryza glaberrrima é o nome de uma dessas sementes, mais conhecida como arroz quilombola. Além de alimento, o arroz quilombola é um dos símbolos da resistência do povo africano.

Em Restinga Seca, na Quarta Colônia, o Oryza glamberrima é cultivado em quilombos como o de São Miguel e do Rincão dos Martimianos. O arroz que vai para a sua panela todo dia, aquele branquinho, é o arroz asiático. O cultivado nas comunidades quilombolas tem a casca vermelha. Por volta de 1619, os negros começaram a plantar no Maranhão, o arroz para a subsistência. Essa variedade acabou sendo proibida pelos portugueses, que instituíram o arroz asiático e chegavam a dar penas de prisão a quem resistisse. Roberto Rosa é o presidente da comunidade São Miguel e coordenador da Associação das Comunidades Quilombolas do Rio Grande do Sul e comenta sobre o significado do arroz quilombola para as comunidades: “Ele representa algo de resgate. É um símbolo de toda trajetória dos povos que vieram da África”.

Além da valorização da etno-agricultura, os quilombos buscam o resgate cultural, através da prática da dança afro, a capoeira e a religião de matriz africana. Rosa comenta que é firmada uma parceria com o município e magistério para palestras e seminários sobre identidade, com a perspectiva de resgatar e unir os saberes. As comunidades também se reúnem para debater os problemas e buscar soluções.

Saúde, educação e trabalho são questões que precisam ser melhoradas nos quilombos. A questão territorial também preocupa: “Fica difícil se autogestar e pôr em prática os saberes culturais em terrenos tão resumidos como os de algumas comunidades. O espaço oportuniza o trabalho e gera subsistência”, segundo Rosa. Mas a prática mais importante nos quilombos é a socialização da troca: “Um quilombo, apesar do espaço resumido, cultiva acima de tudo a solidariedade entre as famílias e comunidades”.

Não só o trabalho braçal foi uma contribuição deixada pelos escravos ao Brasil, eles foram responsáveis pela introdução de diversas espécies de verduras e sementes, como feijão, pimenta-malagueta e inhame, além da vasta contribuição cultural. O quilombo é um dos espaços principais de preservação da identidade do povo africano e o debate é a ferramenta principal, como afirma Rosa: “Mais do que nunca, temos a esperança de que o debate assegure o direito de garantir e preservar a cultura dos povos negros”.


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Além de alimento, o arroz quilombola é um dos símbolos da resistência do povo africano.

Créditos: guayi.org.br


Pesquisa & Realidade

A Geografia da Quarta Colônia

José Itaqui*

A primeira vez que avistei um rio foi das grimpas de uma pereira, nos altos do São José, em Cachoeira do Sul. De lá de cima, balançando entre os galhos e a brisa no rosto, maravilhado, vi o Jacuí, o mar da minha infância. Quando as águas baixaram e ele voltou ao seu leito, oportunizou que o bulicheiro da esquina fosse se abastecer de arroz no moinho que, diziam, estava junto ao rio. Era a oportunidade de eu ver o rio de perto! Não foi fácil convencer minha mãe, aprovar que eu atravessasse a cidade de carroça até as barrancas do rio. Naquele mágico dia molhei meus pés em suas águas e um frio tomou conta do meu corpo arrepiado.

Da margem esquerda do rio, a espera de ordens do general inimigo, de Don José de Andonaegui, Gomes Freire de Andrada, impaciente, estava acampado, desde os primeiros dias de setembro de 1754, no Passo do Jacuí. Divisa, hoje, entre os municípios de Cachoeira do Sul e Restinga Seca. O Vice-Rei e Capitão General das Capitanias do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Matogrosso e São Paulo teria apreciado a floresta que num contínuo acompanhava os capões, várzeas e os contrafortes, vestidos de verde, contrastava com o céu daquele dia de primavera? Já estariam floridos os Ipês? Das águas emergiam diferentes espécies de arbustos que movidos pelas ondas era como se a floresta nascesse ali, das águas. Os juncos juntavam-se às diversas espécies de arbustos, matagais formando um só ambiente de brejos, capões e a soberba floresta se estendia espessa sobre a serra recortada num céu de chumbo. Lá, sobre a serra, depois do Mato Castelhano, estava o tão desejado botim missioneiro, e para conquistá-lo, com toda a pompa que exige tal proeza, ele, o gran señor, tinha sob seu comando, descontando os paulistas e escravos fugidos, mais de 4.000 homens, gado, mulas, cavalos e toda a parafernália bélica que a gesta exigia.

No seu diário, o arquiteto José Gomes de Sá e Faria, então acompanhante do Conde de Bobadella na “Expedição de Demarcação da América Meridional e das Campanhas das Missões do Rio Uruguai”, comenta que no dia cinco de outubro, depois de um mês junto ao rio e, se não bastasse os índios lhe encher o saco, começou a chover e a chuva foi apertando, apertando, apertando ...

A treze do mesmo mês o exército estava cercado pelas águas e a soldadesca foi obrigada construir “giraus” dentro das barracas e, não sendo suficiente, tiveram que abandoná-las e subirem nas árvores. O caos instalou-se na organização rígida das tropas portuguesas!

As tropas haviam acampado a uns quinze quilômetros ao sul da saída do vale e estavam entre a desembocadura do rio Soturno e a do Vacacaí Mirim. Um pouco mais abaixo o Jacuí recebe as águas do Vacacaí Grande e se alarga ganhando a planície em direção a Leste. De onde estavam acampados é impossível perceber o volume das águas, da energia, é não por nada que na calha do Jacuí foram construídas cinco hidroelétricas que produzem ao redor de 1.000 MW de energia. Por mais que tivessem conhecedores da região é muito difícil, na época, calcular o volume de águas que a bacia do Alto Jacuí reúne em poucas horas. É importante destacar que as florestas não haviam sido tocadas pelo “engenho” europeu. As águas dessem serpenteando os vales uns 200km até a Depressão Central e desta ao Guaíba, Lagoa dos Patos e ao mar.

No dia quinze de outubro, dia de Santa Teresa, da qual o nosso general era devoto, por “graça” a ela, na parte da tarde, todos, independentes da patente, tiveram o “gosto de ver vazar o caudaloso rio Jacuí”. Este deve ter sido o primeiro documento que fala do poder das águas do rio Jacuí. Os contrafortes, os campos de cima e debaixo da serra tinham seus sistemas naturalmente preservados, mas, por pouco, por muito pouco que o grande general português não foi levado pelas águas e o Passo do Jacuí não entraria para a história como uma das fronteiras entre as colônias portuguesas e espanholas.

O que temos hoje das condições ambientais, não de 1754, mas de 1954? Dos topos das serras, encostas, várzeas e da Restinga? Do sistema ripário que cobria os brejos, várzeas, margens de sangas, arroios e rios? Transformação causada pelas atividades agrícolas, mas não foi só ela a vilã, as cidades contribuem com a impermeabilização do solo urbano é a ocupação irregular de áreas de risco.

No mês de novembro choveu ao redor de 600mm e se isto tivesse ocorrido na época de Gomes Freire, grande parte destas águas ficariam nas folhas, galhos e troncos, parte escorreria superficialmente, evaporaria, mas a maior parte filtraria alimentando o sistema hídrico. Quantos destes seiscentos milímetros foram retidos? Se a natureza falasse, como ela nomearia o nosso engenho? A beleza da Quarta Colônia é a sua geografia delicada e que exige cuidados redobrados para que não sejamos expulsos pela mãe natureza.

  • Secretário Executivo

condesus@quartacolonia.com.br


Pela região

Quarta Colônia em pauta

Lideranças políticas e sociais participaram no último dia 14, das 8h às 18h, da 4ª Conferência Regional das Cidades da Quarta Colônia. O evento aconteceu na sede do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica (CAPPA), em São João do Polêsine. O lema foi “Cidades para todos e todas com gestão democrática, participativa e controle social”. O tema, por sua vez: “Avanços, dificuldades e desafios na implementação da política de desenvolvimento urbano”.

Segundo o Condesus, promotor do evento junto à Quarta Colônia, o encontro teve como objetivo principal oportunizar a reflexão quanto a cidade herdada, como ela vem sendo transformada e o que é projetado para o seu futuro. Também com esse objetivo José Itaqui, secretário executivo do Condesus, abriu o evento e emocionou aos participantes. Trazendo a situação atual de alguns municípios dadas as últimas consequências das chuvas, apontou a influência do homem no meio e mais: incentivou a visão e a preocupação com o todo. “As questões nascem dentro de casa. Mas elas não só nascem, elas crescem”, resumiu ele.

Na oportunidade, ocorreu, ainda, a entrega dos Planos Diretores da Quarta Colônia e Planejamento Regional da Quarta Colônia. Conforme o professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) Decio Bevilacqua, arquiteto e urbanista, coordenador da Equipe Interdisciplinar do Projeto Ambiental da Quarta Colônia agora é o momento de maior importância para o envolvimento das administrações municipais com o fim de proporcionar também o envolvimento da comunidade.

Orgulhoso e otimista diante do trabalho, Bevilacqua falou em soluções, alternativas e, especialmente, em cooperação. “Hoje discutiremos as necessidades regionais. Depois passaremos para um passo de conferência estadual e, depois, nacional. Para isso, daqui, desse passo regional, a dica é que a população fique atenta aos comunicados, participe, coopere. O objetivo é o desenvolvimento”, finalizou.

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Bevilacqua (foto) explica o material que foi entregue e fala sobre os próximos passos.

Créditos: Andrewes Koltermann


=Nossa gente, nossa atitude

Quarta Colônia in Blues

Por volta do ano de 2003, no interior de Restinga Seca, na região de Várzea do Meio, quatro jovens iniciavam a formação de uma banda. E não era uma banda folclórica germânica ou tradicionalista gaúcha. O som que vinha da Várzea tinha raízes no blues, gênero musical originário dos cânticos entoados pelos escravos no sul dos Estados Unidos no século XIX, e definido musicalmente após a Guerra Fria. Ao unir o som do blues ao rock de bandas como AC/DC e Led Zeppelin, estava formada a banda Espinha de Peixe, blues-rock feito na Quarta Colônia.

“A gente queria pôr um nome que desse total descrédito para a banda para o pessoal começar a nos curtir pelo som e não pelo nome”, explica Cezar Gomes, o caçula dos irmãos Gomes. Ele e o irmão Carlos são os fundadores da banda, influenciados pelo irmão mais velho Cristian, que conheceu o rock e o blues ouvindo os vinis da mãe Grete e do pai Cerli. Carlos assumiu a bateria e Cezar, a guitarra. O amigo Vagner Piovensan completou a formação como contrabaixista.

Depois de um ano de ensaio em um estúdio improvisado na Várzea do Meio, aconteceu o primeiro show da banda em um encontro de motociclistas, em Restinga Seca. De lá para cá, foram shows em várias cidades da região, principalmente Santa Maria. Com o passar do tempo, mais membros foram somados. Adriano Taques no teclado e Márcio Pinto fazem participações especiais, como tecladista e guitarrista, respectivamente. O santa-mariense César Teixeira é o mais novo componente e figura na harmônica da banda.

A vida no interior influi muito no som da Espinha de Peixe: “Personificamos muito o rock rural. Nos intervalos do trabalho na lavoura é que ensaiávamos e os vizinhos até desligavam a tevê e ouviam”. A Quarta Colônia, além de lar e berço da maior parte dos integrantes da banda, está presente no seu repertório, como conta o baterista Carlos: “A música é sentimento puro. O ambiente, a localidade, tudo influencia, tudo altera as digitais do sujeito, porque a música transpira o sentimento. Tudo isso enriquece a gama de influências e sai na música”.

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A Quarta Colônia, além de lar e berço da maior parte dos integrantes da banda, está presente no seu repertório.

Créditos: Divulgação


Acontece

Um barril de histórias!!!

No início desse mês, mais uma edição do tradicional Baile do Chopp aconteceu em São João do Polêsine. O evento, que já faz parte das festividades do município, é realizado desde 1968. A tradição do baile é germânica, e a iniciativa para sua realização, há mais de quarenta anos, foi do Dr. Roberto Binatto. “Na época, os foliões só precisavam comprar o caneco, já que o chopp era liberado durante a noite inteira”, lembra Romoaldo Dalmolin, sócio fundador e ex-presidente da Sociedade Agrícola, Cultural e Esportiva Polesinense (Sace).

A entidade, lembrada especialmente pela animação de seu carnaval, também tem no Baile do Chopp um evento prestigiado. Organizado tradicionalmente no primeiro sábado do mês de janeiro, o baile conta com a participação da comunidade, que prestigia sempre. Dalmolin conta que na época das primeiras edições, os lucros eram tão significativos que a Sace distribuía prêmios. Em 1970, um Fusca Zero Km foi sorteado entre os foliões.

Em 2010, o evento chegou a sua 42ª edição e foi um sucesso. Nesse ano, a animação foi por conta da banda Novo Rumo, que embalou mais de mil foliões com um repertório variado, com destaque para as músicas alemãs. Segundo dados de Pio José Rosso e Alexandre Fischer, respectivamente Presidente e Diretor Social da Sace Polesinense, 1.200 litros de chopp foram comercializados nessa última edição.

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Em 1970, um Fusca Zero Km foi o prêmio sorteado entre os foliões do Baile do Chopp de São João do Polêsine.

Créditos: Arquivo pessoal


Organizado tradicionalmente no primeiro sábado do mês de janeiro, o baile conta com a participação da comunidade, que prestigia sempre.

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Agenda

A Sociedade Caravel de Esportes, Recreação e Cultura de Vale Vêneto promove neste sábado, 23 de janeiro, seu tradicional Jantar Dançante. O evento começa às 20h30min, e traz um delicioso cardápio, com bife à milanesa, galeto, risoto e saladas. A animação do jantar fica por conta da banda Agudense. Mais informações e reservas através dos telefones (55) 3226 4061 ou (55) 3289 1086.

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